A paixão é um sentimento ardente, quente, vibrante e vem acompanhada de um menu de desejos pessoais que queremos satisfazer ou da pessoa que gostaríamos de ser. Aquele por quem nos apaixonamos é o espelho refletido de nossas projeções essenciais, ou daquilo que somos e ainda não conseguimos despertar ou do que jamais seremos, mas admiramos.
A química da paixão é um feitiço, que muitas vezes acaba rápido, outras vezes não e que de vez em quando se transforma em amor. Inevitavelmente, com o tempo, independente do desenrolar do relacionamento, é possível perceber que a paixão foi só uma isca de união, se mostrando um grande aprendizado para a maturidade ou um belo instrumento de manutenção do amor se ambos olharem para a verdade em seus corações. Nesse último caso a tendência é um relacionamento duradouro, onde ambos se preocupam com o crescimento pessoal, profissional e espiritual do outro e assim crescem juntos, constroem juntos uma vida de harmonia e prazer e criam uma esfera de energia que será transmitida ao mundo.
Eu vivi um amor assim, que começou com uma curiosidade e admiração. Era uma paixão proibida, eu era uma criança ainda e meu objeto de admiração tinha dono, muito mais maduro, alguém experiente que já sabia lidar com suas necessidades e possibilidades. Havia envolvimento entre eles!
Cresci e muitas foram minhas paixões... muitas coisas contribuíram para construir a pessoa que vinha se desenvolvendo.
Num determinado momento da vida, realizei meu sonho infantil. Após ler "A Mulher de 30", vivi aquela paixão antiga, com permissão e apoio de seu dono. Meu pai me cedeu sua Nikon FG e todo equipamento complementar para que eu fizesse um curso de fotografia na Escola Panamericana de Arte. Ele realizava meu sonho de possuir a câmera e eu realizava o sonho dele de fazer aquele curso, naquela escola.
O amor brotou entre nós. Ela era cúmplice de minhas visões, idéias, pensamentos, sentimentos e emoções. Eu era desajeitada, ignorante, imatura e muitas vezes não a tratei como merecia por impulsividade e desconhecimento, atitudes próprias de quem é inexperiente numa relação, mas ela sempre me perdoava e esperava meu tempo de aprendizado. Só quem não se perdoava era eu, quando terminava uma sessão inteira e depois via que não a tinha alimentado com filme. Ou que ao enrolar o filme errado, perdia todo nosso trabalho, tão bem desempenhado ( mais por ela). Ela sempre trabalhava arduamente durante a semana tentando captar da forma mais fiel os congelamentos de minhas melhores visões e jamais me deixou na mão. Toda sexta-feira ela me aguardava dentro do laboratório escuro e silencioso torcendo para que eu ficasse feliz e satisfeita em ver nossas imagens captadas surgirem magicamente, pouco a pouco no papel dentro de uma bacia de químicos, iluminadas somente por uma luz vermelha de baixíssima intensidade. Nasciam nossas fotografias!
Infelizmente, somos de gerações diferentes. Fui a última geração da câmera manual na escola e resisti bravamente a digital por amor e fidelidade a mágica da fotografia.
As pessoas, impiedosas, criticavam nosso relacionamento e talvez por se sentir mais responsável do que eu, minha Nikon FG entrou em coma profundo.
Me senti uma traidora, mas precisei me atualizar e comprar uma Nikon D60 para começar a brincar de digital. Não conseguia me entender com ela. Quando não existe química a primeira vista, não é possível iniciar um relacionamento. Da mesma forma que é possível iniciar um relacionamento quando ainda amamos outra pessoa. Muito difícil essa situação, ser obrigada a se apaixonar... sentia raiva e medo ao mesmo tempo!
Estava me sentindo a própria mulher que foi prometida a um casamento, pela família. Agh!
Passado um ano de familiarização com a idéia desse casamento imposto, comecei a enxergar o noivo com outros olhos. Percebi que era bonito, jovem, moderno, cheio de recursos, que poderia me ensinar bastante, facilitar minha vida e me fazer mudar conceitos e padrões. Resolvi me entregar de corpo e alma a minha nova câmera fotográfica digital, a Nikon D60.
Confesso que ela já tem me conquistado, acho que bastará uma sessão de fotos românticas pela Europa, para ela me fisgar de vez!